A nota publicitária da UNIBAN sobre a expulsão da aluna intitula-se: “RESPONSABILIDADE EDUCACIONAL – A educação se faz com atitude e não com complacência”. Há tantas contradições nesta nota que é difícil falar sobre tudo, atentemos sobre alguns pequenos fatos:
1) Como uma universidade faz uma “Nota publicitária” para dizer que expulsou um aluno? A publicidade não deveria ser para vender um produto? Qual o produto vendido? Será que acham que expulsar uma “vítima’ (ponho entre aspas porque há muita coisa mal explicada nesta história ainda, mas os vídeos que temos pelo menos até agora, mostram uma aluna sendo xingada de “puta” por uma universidade quase inteira numa cena de assustar. Uma cena que parece rebelião em presídios americanos em alguns filmes que vemos.) faz com que tenham uma educação com mais “atitude”? Atitudes são muitas. Os nazistas também tomaram atitudes – matar os judeus, os armênios e outros.
2) Complacência? Como assim? As cenas vistas são desoladoras? Não consigo imaginar que a expulsão sumária, por usar roupas curtas, seja um caso de não complacência, mas sim um caso de incompetência.
3) Em outra parte desta mesma nota há o seguinte fragmento: “Foi constatado que a atitude provocativa da aluna, no dia 22 de outubro, buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar.”. Onde que um grupo (enorme diga-se de passagem) de alunos gritando “puta” para uma aluna é uma reação de defesa do ambiente escolar. O que menos aparecem nas imagens vistas é alguém preocupado com o “ambiente escolar”. Porque as imagens, como já disse, são de rebelião de presídio.
Fatos lamentáveis, sem dúvida. E a discussão poderia seguir muito ainda. Como se pode ver no texto de Vivian Carvalho sobre o assunto.
Geisy
A mídia está transformando Geisy numa espécie de “mártir do vestidinho Pink”. É a Gata Borralheira que foi expulsa do palácio. No twitter, a campanha “Free Geisy” certamente entrará em breve nos trending topics.
Geisy sofreu bullying. É como numa escola, quando a turma inteira se junta para “zuar” um colega, coisa que todos nós já fizemos um dia, e de que certamente já fomos vítimas também. Claro que no caso da Uniban, a coisa ganhou uma proporção imensa e absurda, e a mídia ajuda a torná-la ainda maior, fazendo com que a maioria das pessoas saia em defesa de Geisy. O curioso é pensar (ter quase certeza) de que muitos dos que virtualmente a defendem, certamente a chamariam de puta no meio da multidão.
Eu não conheço Geisy, não sei se ela é boa ou má pessoa. O que eu sei é que vi diversos vídeos, reportagens e fotografias em que uma moça loira aparece com algo que, a meu ver, é uma blusa – do tipo que se usa com calças legging – esticada para ficar mais comprida, e não um vestido, com sandálias pretas de salto alto. Não creio que seja um traje apropriado para assistir aulas na faculdade, ou mesmo para desfilar pelas rampas do campus até a sala de aula. Talvez pra sair à noite dê certo. De qualquer forma, se a intenção da moça era chamar a atenção de algum rapaz – ou de muitos – deu certo, claro que não da maneira como ela esperava. A universidade alega, em sua “Nota Publicitária”, que a aluna já fora advertida em outras ocasiões por ter frequentado o ambiente universitário em trajes inapropriados, e que não mudou seu comportamento.
Muitos dizem que “nada justifica o que fizeram com Geisy na UNIBAN”. Mas há, sim, uma justificativa. O sistema educacional brasileiro piora a cada dia. A progressão continuada nas escolas públicas é uma espécie de “avaliação automática”, que faz com que os alunos passem para a série seguinte independente de terem assimilado o conteúdo ensinado na série em que estavam, sob o pretexto de democratizar o ensino e manter os alunos nas escolas. Já nos colégios particulares, alunos repetentes podem fazer reclassificação em outras escolas, para que não seja necessário “rever” a série que já foi cursada. Isso, é claro, quando o papai ou a mamãe não conversam com a diretoria e dão um jeitinho do filho ser aprovado. Assim, milhares de jovens terminam o ensino médio sem saber o que deveriam. São estes mesmos jovens que buscam as “Uni qualquer coisa”, que oferecem cursos universitários com baixas mensalidades, e onde os vestibulares ou processos seletivos – quando existem – chegam a ser ridículos. É comum ouvir a piadinha que diz que em certas universidades, “é só deixar o RG cair na porta, que a matrícula é feita no ato. O difícil é cancelar depois.”
Todo mundo tem direito a educação. Mas a educação de qualidade. De que adianta a tal da progressão continuada se ninguém aprende nada? De que adianta a imensa oferta de universidades – que a meu ver mais parecem comércio, alguns estão até mesmo dentro de Shoppings – se o único critério que determina o ingresso e permanência nas mesmas é a mensalidade paga todo mês? O sistema educacional no Brasil vem se deteriorando há anos, e o que aconteceu na Uniban nada mais é que um reflexo disso. Na escola não se aprende apenas português e matemática, mas também bom senso, discernimento e respeito. Pelo menos era assim no meu tempo – e olha que nem faz tanto tempo assim. Hoje, alunos de colégios tradicionais de São Paulo postam no youtube vídeos em que destroem a sala de aula no último dia letivo, contam vantagem por fazer sexo no banheiro da escola e passam anos aguardando pela viagem de formatura para Porto Seguro, onde ficam uma semana sem a supervisão dos pais e dos professores, bebendo até cair todos os dias. O que esperar de jovens assim?
Muito pior do que aconteceu com Geisy é o caso de outra aluna da UNIBAN (não sei se da mesma unidade, afinal, são muitas filiais!), estudante de educação física, que não quer ser identificada. Em abril deste ano, ao furar um bloqueio feito por alunos que faziam uma manifestação contra mudanças no sistema de provas da faculdade, a moça foi agredida fisicamente, tendo hematomas e ferimentos perto do olho. Ela abandonou o curso após o ocorrido, e hoje sofre de depressão. Se não fosse pelo que aconteceu com Geisy e seu vestidinho pink, muito provavelmente este caso sequer seria lembrado, e, no entanto, foi muito mais grave. Existem vídeos da agressão da internet, da mesma forma como existem vídeos do desfile de Geisy. Por que não se faz então o mesmo estardalhaço? Talvez porque a moça que apanhou não seja uma loirinha gostosa que estava desfilando com seu mini-vestido e sandálias de salto, talvez porque ela não faça questão de dar entrevistas e aparecer em programas de TV (um parênteses aqui: é curioso como Geisy agora só dá entrevistas de calça e uma blusa preta de gola alta. Com certeza foi orientada por seus advogados, que, segundo a UNIBAN, são associados a uma emissora de TV).
Eu não me preocupo com a Geisy. No fundo, acho que ela se deu bem. Está curtindo muito mais que os 15 minutos de fama que Andy Warhol disse que todos nós teríamos um dia. A mártir da UNIBAN deve receber um convite pra posar nua depois que a poeira baixar – isso se já não tiver recebido. A chamada da revista pode ser: “Nos tiramos o que a faculdade não deixou.” E como o cachê será bem maior que o salário do mercadinho onde trabalha, ela acabará aceitando, e com razão. Depois, quem sabe, pode participar de um reality show, talvez “A Fazenda das (sub)Celebridades”, talvez algum outro. Depois virá o convite pra fazer filme pornô. Ou seja: ganhando ou perdendo o processo que está movendo contra a faculdade, e no qual deve pedir uma gorda indenização, Geisy vai melhorar – e muito – sua conta bancária.
Enquanto isso, ficamos por aqui, debatendo, teorizando, alguns criando campanhas a favor ou contra Geisy. Ganhar dinheiro que é bom, nada!
É… acho que hoje vou trabalhar de vestidinho pink! Vai que eu viro uma celebridade como a Geisy? Nunca se sabe!