Manoel Carlos e a “eterna” Helena

Se Manoel Carlos tivesse vivido na Inglaterra do século XVII e escrevesse teatro poderia ter  escrito: Romeu e Helena. A tragédia de Julia Helena.

Macbeth seria casado com Lady Helena, Otelo não estaria com Desdêmona e sim casado com Helena. As filhas de Rei Lear seriam Goneril, Reagan e no lugar de Cordélia, claro, não poderia deixar de estar a “querida” Helena.

A Megera Domada não seria a Catarina e Petruchio, sem dúvida, teria que se ver com a Helena.

 

Já se tivesse vivido no século XIX poderia ter escrito:

Dom Casmurro – Uma história de traição entre Bentinho e Helena (anos depois a Globo faria uma série chamada Helena).

Memórias Póstumas de Helena. Helena Borba. A mão e a luva (de Helena). Seriam outros clássicos imperdíveis.

 

Observação importante: O livro Helena de Machado continuaria a ser chama Helena.

 

 

Felizmente isso não aconteceu tanto Machado quanto Shakespeare eram muito mais criativos que o eterno autor do Leblon. Mas e se não tivessem sido assim:

Shakespeare poderia ter uma paixão enorme por Hamlet, por exemplo, e escreveria:

Hamlet e Julieta.

Hamlet, o mouro de Veneza.

Hamlet VIII

Rei Hamlet.

 

E se Machado tivesse uma fascinação por Capitu teria escrito:

Esaú e Capitu.

Capitu.

Capitu Borba.

Memórias Póstumas de Capitu Cubas.

 

Outro felizmente – a história não foi assim.

Quantas Helenas mais Manoel Carlos vai conseguir fazer? Incógnita, mas torço que não dure muito.

O(s) caso(s) UNIBAN

A nota publicitária da UNIBAN sobre a expulsão da aluna intitula-se: “RESPONSABILIDADE EDUCACIONAL – A educação se faz com atitude e não com complacência”. Há tantas contradições nesta nota que é difícil falar sobre tudo, atentemos sobre alguns pequenos fatos:

1) Como uma universidade faz uma “Nota publicitária” para dizer que expulsou um aluno? A publicidade não deveria ser para vender um produto? Qual o produto vendido? Será que acham que expulsar uma “vítima’ (ponho entre aspas porque há muita coisa mal explicada nesta história ainda, mas os vídeos que temos pelo menos até agora, mostram uma aluna sendo xingada de “puta” por uma universidade quase inteira numa cena de assustar. Uma cena que parece rebelião em presídios americanos em alguns filmes que vemos.) faz com que tenham uma educação com mais “atitude”? Atitudes são muitas. Os nazistas também tomaram atitudes – matar os judeus, os armênios e outros.

2) Complacência? Como assim? As cenas vistas são desoladoras? Não consigo imaginar que a expulsão sumária, por usar roupas curtas, seja um caso de não complacência, mas sim um caso de incompetência.

3) Em outra parte desta mesma nota há o seguinte fragmento: “Foi constatado que a atitude provocativa da aluna, no dia 22 de outubro, buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar.”. Onde que um grupo (enorme diga-se de passagem) de alunos gritando “puta” para uma aluna é uma reação de defesa do ambiente escolar. O que menos aparecem nas imagens vistas é alguém preocupado com o “ambiente escolar”. Porque as imagens, como já disse, são de rebelião de presídio.

Fatos lamentáveis, sem dúvida. E a discussão poderia seguir muito ainda. Como se pode ver no texto de Vivian Carvalho sobre o assunto.

Geisy

A mídia está transformando Geisy numa espécie de “mártir do vestidinho Pink”. É a Gata Borralheira que foi expulsa do palácio. No twitter, a campanha “Free Geisy” certamente entrará em breve nos trending topics.

Geisy sofreu bullying. É como numa escola, quando a turma inteira se junta para “zuar” um colega, coisa que todos nós já fizemos um dia, e de que certamente já fomos vítimas também. Claro que no caso da Uniban, a coisa ganhou uma proporção imensa e absurda, e a mídia ajuda a torná-la ainda maior, fazendo com que a maioria das pessoas saia em defesa de Geisy. O curioso é pensar (ter quase certeza) de que muitos dos que virtualmente a defendem, certamente a chamariam de puta no meio da multidão.

Eu não conheço Geisy, não sei se ela é boa ou má pessoa. O que eu sei é que vi diversos vídeos, reportagens e fotografias em que uma moça loira aparece com algo que, a meu ver, é uma blusa – do tipo que se usa com calças legging – esticada para ficar mais comprida, e não um vestido, com sandálias pretas de salto alto. Não creio que seja um traje apropriado para assistir aulas na faculdade, ou mesmo para desfilar pelas rampas do campus até a sala de aula. Talvez pra sair à noite dê certo. De qualquer forma, se a intenção da moça era chamar a atenção de algum rapaz – ou de muitos – deu certo, claro que não da maneira como ela esperava. A universidade alega, em sua “Nota Publicitária”, que a aluna já fora advertida em outras ocasiões por ter frequentado o ambiente universitário em trajes inapropriados, e que não mudou seu comportamento.

Muitos dizem que “nada justifica o que fizeram com Geisy na UNIBAN”. Mas há, sim, uma justificativa. O sistema educacional brasileiro piora a cada dia. A progressão continuada nas escolas públicas é uma espécie de “avaliação automática”, que faz com que os alunos passem para a série seguinte independente de terem assimilado o conteúdo ensinado na série em que estavam, sob o pretexto de democratizar o ensino e manter os alunos nas escolas. Já nos colégios particulares, alunos repetentes podem fazer reclassificação em outras escolas, para que não seja necessário “rever” a série que já foi cursada. Isso, é claro, quando o papai ou a mamãe não conversam com a diretoria e dão um jeitinho do filho ser aprovado. Assim, milhares de jovens terminam o ensino médio sem saber o que deveriam. São estes mesmos jovens que buscam as “Uni qualquer coisa”, que oferecem cursos universitários com baixas mensalidades, e onde os vestibulares ou processos seletivos – quando existem – chegam a ser ridículos. É comum ouvir a piadinha que diz que em certas universidades, “é só deixar o RG cair na porta, que a matrícula é feita no ato. O difícil é cancelar depois.”

Todo mundo tem direito a educação. Mas a educação de qualidade. De que adianta a tal da progressão continuada se ninguém aprende nada? De que adianta a imensa oferta de universidades – que a meu ver mais parecem comércio, alguns estão até mesmo dentro de Shoppings – se o único critério que determina o ingresso e permanência nas mesmas é a mensalidade paga todo mês? O sistema educacional no Brasil vem se deteriorando há anos, e o que aconteceu na Uniban nada mais é que um reflexo disso. Na escola não se aprende apenas português e matemática, mas também bom senso, discernimento e respeito. Pelo menos era assim no meu tempo – e olha que nem faz tanto tempo assim. Hoje, alunos de colégios tradicionais de São Paulo postam no youtube vídeos em que destroem a sala de aula no último dia letivo, contam vantagem por fazer sexo no banheiro da escola e passam anos aguardando pela viagem de formatura para Porto Seguro, onde ficam uma semana sem a supervisão dos pais e dos professores, bebendo até cair todos os dias. O que esperar de jovens assim?

Muito pior do que aconteceu com Geisy é o caso de outra aluna da UNIBAN (não sei se da mesma unidade, afinal, são muitas filiais!), estudante de educação física, que não quer ser identificada. Em abril deste ano, ao furar um bloqueio feito por alunos que faziam uma manifestação contra mudanças no sistema de provas da faculdade, a moça foi agredida fisicamente, tendo hematomas e ferimentos perto do olho. Ela abandonou o curso após o ocorrido, e hoje sofre de depressão. Se não fosse pelo que aconteceu com Geisy e seu vestidinho pink, muito provavelmente este caso sequer seria lembrado, e, no entanto, foi muito mais grave. Existem vídeos da agressão da internet, da mesma forma como existem vídeos do desfile de Geisy. Por que não se faz então o mesmo estardalhaço? Talvez porque a moça que apanhou não seja uma loirinha gostosa que estava desfilando com seu mini-vestido e sandálias de salto, talvez porque ela não faça questão de dar entrevistas e aparecer em programas de TV (um parênteses aqui: é curioso como Geisy agora só dá entrevistas de calça e uma blusa preta de gola alta. Com certeza foi orientada por seus advogados, que, segundo a UNIBAN, são associados a uma emissora de TV).

Eu não me preocupo com a Geisy. No fundo, acho que ela se deu bem. Está curtindo muito mais que os 15 minutos de fama que Andy Warhol disse que todos nós teríamos um dia. A mártir da UNIBAN deve receber um convite pra posar nua depois que a poeira baixar – isso se já não tiver recebido. A chamada da revista pode ser: “Nos tiramos o que a faculdade não deixou.” E como o cachê será bem maior que o salário do mercadinho onde trabalha, ela acabará aceitando, e com razão. Depois, quem sabe, pode participar de um reality show, talvez “A Fazenda das (sub)Celebridades”, talvez algum outro. Depois virá o convite pra fazer filme pornô. Ou seja: ganhando ou perdendo o processo que está movendo contra a faculdade, e no qual deve pedir uma gorda indenização, Geisy vai melhorar – e muito – sua conta bancária.

Enquanto isso, ficamos por aqui, debatendo, teorizando, alguns criando campanhas a favor ou contra Geisy. Ganhar dinheiro que é bom, nada!

É… acho que hoje vou trabalhar de vestidinho pink! Vai que eu viro uma celebridade como a Geisy? Nunca se sabe!

O que Dilma e a UNIBAN têm em comum?

Nos últimos dias a mídia vem tendo a culpa por muitos fatos ocorridos.

Dilma diz que a mídia distorce tudo de bom que o governo faz.  A UNIBAN diz que a mídia “perde a oportunidade de contribuir para um debate sério e equilibrado sobre temas fundamentais como ética, juventude e universidade.” No caso de Dilma as reclamações (que não vêm de hoje) são pelas denúncias de desvios e de irregularidades em obras do PAC, ou seja, ao que parece para ela não importa o quanto se roube, o quanto se desvie de dinheiro. Ninguém pode falar nada, porque estão desviando dinheiro, mas estão construindo “o futuro do Brasil”. Para a UNIBAN (que expulsou uma aluna por usar roupas curtas na universidade) a culpa do episódio é da mídia.

Eu não sou nenhum fã dos meios de comunicação em geral, sobretudo quando vemos que há partidarismos em muitos – ou todos – os meios no Brasil de hoje, mas daí a culpá-los por denunciar roubos (mais do que provados neste caso do PAC) e por fazer sensacionalismo no acontecimento da UNIBAN aí já é demais.

Dilma com a ajuda de empreiteiras e de grande parte do Governo permite desvios de milhões e milhões e a culpa é da mídia. A UNIBAN expulsa uma aluna por um caso absurdo e a culpa é da mídia. Onde está a lógica disso tudo?

Luta contra gigantes

Uma das últimas disputas entre Brasil e Espanha se deu na semana passada com a disputa para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 (de minha parte fico muito triste com a vitória brasileira, preferia os jogos em qualquer outro lugar), mas parece que para a Espanha a perda não foi assim tão grande, pelo menos os empresários espanhóis estão em polvorosa com a possibilidade dos muitos novos investimentos. Como se pode ver em: http://migre.me/8PYl e em http://migre.me/8Q0H.

Não sou contra que ninguém ganhe dinheiro de forma honesta, nem mesmo as grandes corporações capitalistas, mas venhamos e convenhamos com a quantidade de dinheiro que a Espanha coloca aqui todos os anos e muito difícil lutar contra eles em outros campos como o da educação por exemplo. Neste campo, o IC e outras mãozinhas espanholas vão se metendo por todos os lados, fazendo coisas por baixo dos panos e de forma a tentar diminuir ao máximo a importância da formação universitária no Brasil.

Lutamos contra gigantes fortes e multimilionários. Difícil tarefa!!!

Prefácio a um livro sem nome

Onde mora a poesia? Perdida em meio a papéis? Jogada numa lata de lixo? Pode ser. Às vezes, no entanto, esta poesia pode estar num arquivo de computador há muito esquecido. Jogada num canto morto entre tantos bits e bytes. Foi assim que este pseudo-livro reapareceu. Chamo-o pseudo porque não teria a qualidade suficiente para ser um livro, mas também não merece ficar para sempre perdido nos arquivos quase-mortos do computador.  

Todos os poemas foram escritos entre os anos de 1994 e 1995. A Introdução um pouco mais recente data de meados de 1999.

São poemas adolescentes, quase pueris. Em muitos se percebe uma forte influencia metalera. São poemas de dor, morte destruição, mas também alguns de esperança e outros de revolta adolescente. Um forte desejo de transformação.

Há ainda no apêndice, além de três poemas de amigos de Giandelli, cinco poemas post-mortem, psicografados não se sabe por quem.

Giandelli, ao que parece, morreu sem deixar sua poesia no ar. Levou-a com ele e nem o além pode nos devolver isso.

O quase-livro não tem um nome, nunca foi batizado, viverá pagão aqui neste mundo informatizado. Deixará de existir em um único computador para existir no emaranhado de computadores globais que formam a internet. Deixará de ter um dono para ganhar o cyber espaço que de tão grande não é de ninguém.

P.S.: Os poemas estão na aba acima com o título de POEMAS ESQUECIDOS

Chorar não se aprende sozinho

Há, entre o princípio da lágrima e a gota no chão,

momentos de tristeza e de alegria.

Há, entre responder “nada” e a certeza da dor,

o desespero de parecer mais do que ser.

Há, entre os olhos lagrimejados e o soluço desesperado,

a eterna incerteza de se ser (humano).

Chorar não se aprende sozinho.

Se sente na comunhão, na separação, na dor do que se move.

A tristeza e a alegria estão no Outro.

(Lacaniano ou não).

Sozinho não se chora, não se vive.

Esquece-se.

Redação Publicitária

Os textos a seguir foram elaborados durante o curso “O texto publicitário com razão e mais emoção” com o professor João Anzanello Carrascoza na ESPM durante as férias de julho.

No primeiro texto a situação proposta pelo professor era escutar duas músicas e fazer uma narração para elas, não as usando como pano de fundo e sim como a própria história. Não sabíamos a princípio quais eram as músicas, depois de o texto pronto nos foi dito que as músicas eram “Trenzinho do Caipira” e “Bachiana Brasileira 1” de Villa-Lobos.  (Depois do texto estão vídeos com as músicas)

No segundo, estávamos de mão dada com o companheiro do lado e tínhamos que escrever um texto sobre as sensações que tínhamos escrevendo  em uma situação tão inusitada.

E o último foi uma propaganda para os roupões ARTEX. O texto foi feito em dupla com o Diego. A aula era sobre Intertextualidade e o texto saiu mais ou menos não foi lá muito bom.

PRIMEIRO TEXTO

O último Navio

O sol mal acabava de aparecer no horizonte e John já corria. Sabia que não poderia atrasar-se. O navio não espera.

Consegue chegar ao porto a tempo. Vê que alguns ainda se despedem, há lágrimas, risadas tristes. Ele entrega seu bilhete à moça que estava na porta do navio. Entra e se dirige rapidamente à parte de cima do navio. Olha os poucos que ainda se despedem de seus familiares, percebe que a seu lado são muitos os que choram e acenam.

Em terra, no porto, muitos também levantam suas mãos, balançam lenços brancos que lembram o da rendição de uma guerra. Exército de vencidos que ficam ou que vão? John também chora. Chora porque não tem ninguém para se despedir. Nenhum daqueles lenços brancos são para ele.

John não tem ninguém para chorar. Todos os seus se foram em outros navios como aquele.  Ele percebe que é o último dos seus que sua família deixou de existir no momento que entrou no navio que logo partirá rumo ao infinito.

SEGUNDO TEXTO

Torto no momento, com a mão levantada e segurando a mão firme de um a “quase” desconhecido.

As idéias fluem para o papel. Do cérebro a mão que escrever há uma interrupção, um contato estranho, uma pulsação anormal.

O braço cansa, a mão firme escreve, a outra vai perdendo a força do aperto inicial, começa a ficar mais solta, leve.

(Solta-se as mãos) A mão que escreve começa a fazer seu trabalho esquecendo da outra que já não atrapalha tanto. Só um leve formigamento. As idéias que fluíam não saem mais tão facilmente. A mão que escreve esquece o trabalho e perde as palavras.

TERCEIRO TEXTO

(O fundo do texto é um banheiro onde a Luana Piovanni está em uma banheira com espuma. Só se vê seus joelhos dobrados para fora e a cabeça, o resto coberto de espuma. Do lado está um roupão, como se estivesse olhando e falando o texto)

Esperando Luana

Chegou, chegaste, fatigada, mas alegre para seu banho de espuma.

Fico esperando esse dia que tanto tarda, seis, sete, nove semanas e meia parece. Mas quando a sexta chega estou aqui pronto para calentar essa linda mulher. Enchê-la de sedução, ter sua pele macia contra meu melhor algodão.

Terminado o banho a protejo, envolvo, conforto, esquento… Ela dança, se diverte, baila comigo, talvez um Tango em Paris.

Durante a semana penso que qualquer roupão vira-lata tem uma vida sexual mais sadia que a minha. Mas na sexta a Luana fica mulher visível só para mim.

Sou o Romeu esperando a Julieta.

Todos podem até sonhar com a Lua, mas na sexta a Luana é só minha.

Roupão ARTEX

Viver como artista.

Bachiana Brasileira 1

Trenzinho Caipira

Rimadas Poesia: Ventana sobre la palabra