INTRODUÇÃO
É difícil escrever a introdução de um livro póstumo de um grande amigo.
Vivi com o Maurício toda a minha infância e nunca pensei que um dia fosse ter que escrever sobre ele, e ainda por cima, em um livro dele.
Creio que estes poemas expressam toda a sua vida, todos os seus amores, todos os sonhos, ilusões, e sua paixão doentia pela MORTE.
Desde os nossos tempos de colégio, ele escrevia, e muito deve ter se perdido, muito nunca deve ter sido “passado a limpo”, muitas vezes ele tinha vergonha do que escrevia.
Era um poeta nato conseguia transformar qualquer assunto em poesia. Na escola, chegava a ser procurado por diversos amigos que lhe contavam suas histórias de amor e pediam para que fizesse cartas, poemas e declarações, um juglar do século XX.
Bons tempos aqueles!…
Faz mais de quatro anos que o Maurício se matou. Mas só agora me entregaram estes poemas, manuscritos, muitos incompletos, os quais não serão publicados ainda. Creio que ele quis encontrar seu grande amor, o único verdadeiro que teve em sua curta vida.
Os poemas deste livro seguem datados como o autor os deixou. Percebemos quando ele está só, quando está amando, quando está envolvido com lutas particulares ou grandes mudanças.
Lembro que, na época que estudávamos, ele e outros amigos escreviam e diziam que estavam iniciando um novo movimento literário (o nome se não me falha a memória era SINTETISMO ) pois, eles diziam que estavam sintetizando toda a obra poética brasileira do decorrer dos séculos. Diziam o Maurício e os amigos (entre eles o Herbos Rodrigues e Silvério Andrada) que recorriam o melhor de cada movimento e juntavam em um único. E para que possam compreender melhor esse movimento, coloco um apêndice com algumas poesias do Herbos e do Silvério.
Outra mania que eles tinham era que muitos de seus poemas tinham na primeira letra de cada verso um nome, uma frase ou algum significado – ao menos para eles. O acróstico foi uma característica marcante na pequena vida poética destes autores.
Li uma crônica do Luís Fernando Veríssimo que se encaixa perfeitamente na vida do Giandelli; o Veríssimo dizia mais ou menos assim: “Uma nota de suicídio só termina se o suicida concluir o que disse, ou seja, matando-se.”
Preferiria que ele não tivesse terminado a sua nota e continuasse aqui junto de nós.
P.S.: Tenham uma boa diversão e nunca terminem uma nota de suicídio.
Marcos Maurício
SONETO I
Olha, Maria, mesmo que em meu campo
Estivessem as maiores tentações demoníacas,
Mesmo que eu fosse atirado nos braços de outra,
Jamais deixaria de querer-te e amá-la.
Que as flores sorriam-te, como todo o mundo
E nesse gramado com tão belos jasmins
Fazem com que a lembrança de teu perfume
Seja cada vez mais profunda.
Mesmo que teus olhos não fossem ardentes
E teu corpo não demonstrasse tamanha beleza
Jamais deixaria morrer o amor que sinto por ti.
Mas antes de poder tocar teu corpo,
Antes de declarar-te todos os poemas,
Deus a quisera, e tirou-a de mim.
23-3-94
SONETO II
As águas que nos rodeiam
O ar que respiramos
Todos parecem estar contra nós
Num mundo de mentiras.
O meu mundo tão distante do teu.
Os pardos, as belas manhãs, o entardecer
Ainda que todos possam tê-la
Sempre vou querê-la mais.
Em meu espelho, só vejo desgostos.
Por estar amando aquela que ama a todos
E estar sendo tão desprezado.
Esquecerei tudo, e todos os problemas
Para tê-la em meus braços, e só nos meus
O amor que feriu a minha vida. Imaginação.
23-3-94
SONETO III
Em seus olhos vejo a realização de meus sonhos.
Sinto o amor pulsar mil vezes mais forte
O compasso de meu corpo fica lento
E tudo se torna realidade.
Estar com você é estar em estado pleno,
O começo é apenas uma fase
O meio o espaço entre o querer e a realização.
E o fim torna-se o infinito.
Em teus lábios entro num outro mundo
No qual você é o universo
E eu os astros que o compõem.
Mas depois acordo e vejo que tudo foi um sonho
Ou melhor, um triste pesadelo,
No qual continuo sozinho.
24-3-94
SONETO IV
Se soubesses, como só me sinto
E apertado vistes, o meu coração
Viria e me amaria
Sem pensar em fatos do passado.
A tua imagem em minha mente
É muito mais que uma visão.
Gosto do que vejo; o amor
Agora quero viver esse amor plenamente.
Eu tenho medo da solidão.
Mas amando-te e não a tendo,
Vejo em minha vida, horror.
Juro por Jove no céu, e por ti na terra
Amá-la até que o destino nos seja cruel
E que um de nós vá brilhar nos palcos do céu.
24-3-94
SONETO V
Minha vida está como a lua encoberta.
Sem exalar amor, fogo ou qualquer brilho.
Estou escondido em memórias
Vivendo de um passado que não existiu.
Gostaria de viver, viver de verdade
Saber como é a vida seus encontros e desencontros
Eu só conheço-a da minha imaginação
Vivo em um mundo que não existe.
Um mundo só meu, onde ninguém consegue entrar
Quero viver, e ser amado
Crescer e desejar.
Meu mundo fechado com portas de ferro
Ninguém entra
E eu não consigo sair do meu próprio mundo.
22-4-94
SONETO VI
Morte e solidão
Palavras distintas e que trazem tamanha discórdia.
Uma nos leva a um mundo que não conhecemos,
E a outra é um mundo onde não queremos viver.
E sem vivermos aonde chegaremos
No mesmo lugar da outra
Nas profundezas do infinito
Sem compreendermos o porquê.
Morte e solidão
Juntas são duas e separadas metade do nada
Um nada que pode ser o tudo.
Um novo mundo
Talvez sem esperanças
Mas quem sabe, o começo de uma vida.
22-4-94
SONETO? VII
Quero saber coisas da vida
Saber o porquê de tamanha discórdia
Num mundo de tantas belezas.
Que a vida me mostre o amor
E porque os homens não podem viver,
Viver sem guerras e sem miséria.
Seria isto impossível?
A dor pode acabar?
E o mundo, pode ser mais feliz?
Sempre existe a esperança.
Talvez esta acabe,
Junto com todos.
Nós não vamos agüentar.
Viver em um mundo com tamanhas desilusões.
22-4-94
SONETO VIII
Gosto da Morte
Seus mistérios e sua obscuridade.
A morte não pode ser vista como o fim
E sim como o novo caminho.
Na vida a muitos caminhos
E na morte quantos deve haver?
Um dia todos a conheceremos
Mesmo sem vontade ou curiosidade.
Ela não escolhe hora, nem avisa quando vai chegar.
Mas todos a temem.
Mesmo sem conhecê-La.
É igual não há distinção
Todos nós morreremos
Hoje ou talvez amanhã.
22-4-94
SONETO IX
Como seria a vida sem a morte?
Um vazio, um grande…nada.
Pra que viveríamos?
E para que teríamos vontades?
Se não fizermos hoje
Faremos amanhã.
Teríamos o infinito
Para resolver um problema.
Por este, e vários outros motivos
Cada vez mais, nos fazem
Cultuar uma vida que sem dúvida, passará.
Por isso aproveite o dia
Seja mais você em cada segundo dela,
Pois a morte virá, sem aviso prévio.
22-4-94
SONETO X
Amo minha Língua
Sem ela o que faria agora
Neste momento, como todos em minha vida
De puro, nada.
Ao menos penso e escrevo
Faço de minhas letras, palavras
E destas frases,
As quais estão lendo agora.
O conhecimento não vale nada
Para quem não tem a imaginação
E a criatividade de transformar.
Sou um artista
Como uns que transformam tinta em quadros
Transformo letras em comunicação.
22-4-94
SONETO XI
Amor, estás tão bela.
E eu sinto-me tão só.
Sua presença em minh’alma.
É muito maior do que posso resistir.
Vejo em minhas lembranças
Carinho, amor, compreensão
E no meu presente
Ódio, horror, destruição.
Aquele parque, aquelas árvores.
Te fostes…
E o amor junto partiu.
Enterradas estavas
Meu Amor, minha esperança
Tudo se foi junto contigo.
26-4-94
SONETO XII
Que seja bem-vinda a morte
Em meu mundo, só desesperança
Somente um vulto negro
Não existe luz, o fim está próximo.
Não existe fim?
Nós é que acabamos?
Não, a vida vem em prol da morte
Esta que nos leva, e nos deixa tão estranhos.
O Futuro é negro.
Mas o Presente também.
Vivermos ou morrermos?
Há vida depois da morte?
Ou melhor, a morte na vida.
Tantas dúvidas em um mundo tão belo.
26-4-94
SONETO XIII
A VIDA EM UM SEGUNDO [1]
Dificuldades e barreiras são coisas
Que não existiram em sua vida.
Ele as atropela e sem pensar
Ganha mais uma!
Vencer ou vencer, todos dizem
Mas só os deuses o podem.
E ele o deus da velocidade
Pôde, e pode muito mais.
Mesmo que a curva o tenha parado
A velocidade foi sua vida e sua morte
Ele continuará sempre vencendo e sendo campeão.
Ele ganhou em uma vida o que muitos,
Não sonhariam, com a eternidade.
Mesmo não sendo eterno, continuará sempre em nossos corações.
10-5-94
SONETO XIV
Há muito não me abro, não escrevo
Sinto falta de minhas palavras
Vejo, penso, reflito, mas não me mexo
Algo de forte retrai-me.
Momentos, muitos não lembro mais
Este é um grande mal dos escritores
A preguiça os deixa sem vontade
E principalmente sem memória.
O tempo passa corre ligeiro.
Logo Ela vem.
E não mais escreverei.
Mas enquanto este dia não chegar
Vou levando, vou trazendo, vou chutando
Enquanto este dia não chegar…
18-8-94
SONETO XV
Tua lembrança está em mim a cada segundo
Tudo que olho, só vejo você,
Um amor transloucado que me transforma
Em um sistema solar sem sol para me guiar.
Teu semblante em minha memória
Faz com que o mundo pare de girar
A gana de ver-te
Faz o meu mundo parar.
Somente um olhar é suficiente
Um sorriso, então,
Quanta honra.
Meu Deus! Até quando
Vou suportar, vou resistir
Viver sem ter você perto de mim.
18-8-94
SONETO XVI
Muito sonhei com este dia
O dia D, o caminho aberto
O futuro próximo
A esperança de que seja, PRÓSPERO.
Foi um instante
Que jamais sairá da memória
Mesmo não tendo sido importante
Foi um marco na história.
Não sei no que pensei
Aliás, acho que não pensei
Fui amado e desejado.
Não houve emoção
Mas foi a maior de todas
Foi o auge da inspiração.
18-8-94
SONETO XVII
Vamos pensar em um mundo perfeito.
Como são perfeitas as flores.
Os rios, a vida, os amores
E como nada é perfeito.
Se vivemos em um mundo de perfeições.
Onde o canibalismo está presente em tudo.
E em todos os lugares.
Onde anda a perfeição?
Talvez perdida no meio da multidão.
Esquecida no espaço.
Na imensa escuridão.
A luz é perfeita, assim com todos nós.
Para que pensarmos?
Não somos todos perfeitos?
18-8-94
SONETO XVIII
INSTANTES
Será que a vida é assim tão breve?
Vivermos vinte, trinta, quarenta anos.
Numa vida de instantes
Quantos instantes devem existir?
Vamos pensar que cada instante é um minuto
Não, melhor não, muito acontece em menos de um minuto.
Então que cada segundo é um instante
Não muito acontece em um segundo.
Na verdade cada instante é tão somente
Isto mesmo, é só um instante
Como este, já não é mais o que passou.
Vamos viver de instantes
Curtir cada momento da vida
Que de instante em instante; é infinita.
18-8-94
FINAL
O fim…
Não existe outra solução,
O ponto final, a frase inacabada.
O fim…
Como tudo acaba,
Quase sem querer.
O fim…
O último suspiro, a gota d’água,
O mar sobrepujando-me.
O fim…
Sem começo, nem meios,
Terminado.
A vida acaba, como tudo nela.
Sem amores e sem esperança.
O que me resta?
A MORTE? 18-8-94
SONETO? XIX
Inspiração é o fruto do ser
É a imaginação
A vontade de sempre querer.
Inspiração que às vezes vem de longe.
Às vezes de tão perto.
Quando estou junto de você.
A felicidade chega ao êxtase
O mundo parece-me pequeno
Quero ter você em meus braços
E sentir o teu corpo suar.
Você é minha inspiração.
O meu ar, e minha vontade de viver.
Não sei o que faria sem você.
Acho que iria ao encontro da MORTE…
8-9-94
SONETO XX
Depois de tanto imaginar
De tanto viver sonhando
Estou sentido, vibrando.
Estou querendo te amar
O sonho virando realidade
O desejo ainda mais forte.
Agora não mais tão ligado a morte.
Estou te querendo de verdade.
Num mundo de incompreensões
Estou me sentido normal,
Tendo inúmeras ilusões.
Cada vez mais a curiosidade
Vem em minha busca
E eu esperando, com muita ansiedade.
8-9-94
SONETO? XXI
Somente te esquecerei
Quando o sol parar de brilhar
As ondas forem quebradas
E a Terra parar de girar.
Não te esquecerei
Nem quando todas as pessoas forem felizes,
Nem quando todos formos iguais.
Você estará sempre em minha memória,
Nas ascendências e descendências da minha vida
Nas curvas à direita ou à esquerda.
Na alegria e na imensidão do obscuro.
Somente te esquecerei
Quando não mais tiver forças
E a vontade de viver for embora.
8-9-94
SONETO XXII
Vamos incentivar o xenofobismo radical
Acabar com essas raças que nos consomem
Dizer não aos americanos babacas.
Que pensam que a vida é um cinema.
Eles jogam com a gente,
Como nós fazemos com a bola,
Para cima e para baixo
Sem sabermos onde vai parar.
Que o anti-americanismo seja pregado
Assim como o povo brasileiro
Prega as divindades eclesiásticas.
Vamos dizer não ao mundo,
Vamos ser BRASILEIROS
Dignos de assim se chamarem.
Um brasileiro de VERDADE
8-9-94
IRMÃO ÓRFÃO
Milhões de pessoas morrendo
Uma guerra sem pátria
Uma luta imbecil
Enquanto americanos
Que dizem serem os donos do mundo.
Tomam Coca-Cola
E jogam basquetebol.
Corpos jogados;
Lixo entulhado.
Não parecem seres humanos
Parecem o fim da esperança
De que vivemos
Num mundo onde existe beleza,
Mas na verdade é um lugar
Onde a maldade vigora.
O poder sobe a mente,
Mais rápido do que o pó chega ao nariz.
Num mundo onde o que manda é a lei.
Esta criada para destruir o pobre.
E os que têm vontade de vencer.
Lutar,
Xingar,
Ganhar a liberdade.
E não mais vermos
Cenas de tamanha brutalidade
Não é a maioria na Terra
Que dizem que somos todos irmãos.
Estou me sentido órfão,
E sozinho no mundo.
8-9-94
SONETO XXIII
Não agüento mais ser rebaixado,
Viver sempre levando ordens
De pessoas que, em geral,
Não fazem nada para receberem meu respeito.
Uma insígnia, um valor imposto.
Valendo em nossa sociedade
Muito mais que a ética,
E a liberdade de ir e vir.
Muitos me chamam de revoltado, revolucionário.
Não. Na verdade luto por um ideal,
O de que somos todos iguais.
Você quer meu respeito?
Então, respeite-me como gente que SOU.
E será também respeitado por mim.
8-9-94
REGRAS
Regras
Não suporto respeitá-las.
Em geral não servem para nada.
E para nada servirão.
Regras e leis
São feitas para serem quebradas
Para lotar os presídios
E diminuir a população.
A polícia mata,
Mais que os próprios bandidos,
‘Servir e proteger’
Não sei a quem, pelo menos não a mim
Regras são feitas por uma classe burguesa;
Burra e cega.
Que só vê o lado das verdinhas;
Que caem em seus bolsos.
Por isso, vamos lutar
Mudar e transformar o Brasil.
Em um país de verdade. 8-9-94
Frases encontradas em alguns cadernos do Maurício
Vamos parar, de sustentar assassinos
Pessoas que matam pais, filhos
E deixam as mães à beira da loucura.
Porque damos cama e comida?
Para quem merecia comer as próprias fezes.
“Morte aos que matam”
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A maldade transforma os seres humanos
Em aranhas
Por isso, vivemos em uma grande teia
Onde cada um quer ser,
A aranha rainha.
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O desejo da morte está em todos nós, mesmo indiretamente a queremos para nós ou para os outros.
A sua forma pode ser diversificada, mas em cada momento pensamos ou a desejamos. Em cada instante a queremos.
Não vivemos para sofrer, mas sim morremos para viver.
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A pressa é inimiga da perfeição,
Então por silogismo é amiga a imperfeição
E como nada neste mundo é perfeito
A pressa é fundamental.
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A comunicação deveria servir para falarmos quando tivermos vontade, escrevermos sempre que pudermos. Só que muitas vezes isto é roubado de nós da mesma maneira que doces de crianças.
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O beijo domina o mundo,
Faz homens de escravos,
E mulheres de Senhores
SONETO XXIV
Não tenho o que pensar,
Estou olhando e não estou vendo
O mundo parece-me tão escuro.
As vozes… os gritos.
Queria vê-la, não posso
Queria tocá-la, amá-la.
Mas tudo deve estar contra.
Até mesmo, nós.
A temperatura aumenta
O ódio, corrompe.
E a desilusão; mata.
Morri por amar.
Mesmo tendo-a tão perto.
Não a pude agarrar.
29-8-94
SONETO XXV
As feridas podem cicatrizar
Podemos até esquecê-las
Talvez mais certo o fosse.
Mas muitas vezes, o engano ocorre.
Engana-se aquele que pensa.
Engana-se o que nasceu
Enganamos a nós mesmos.
Em todos os momentos.
Somente a morte acaba
Com esperanças, com vitórias
Amar é morrer.
As feridas ficarão inertes,
São inesquecíveis e tediosas
O corpo se transforma, mas a ferida continua.
29-8-94
SONETO XXVI
Tanto tempo perdido
Quantos instantes que se foram
Por um preconceito bobo
Perdemos momentos de ouro.
Mas o mundo gira
E vencemos as barreiras,
Pulamos os muros
Como crianças que brincam nas ribanceiras.
Todos os instantes perdidos
Sendo repostos em poucos minutos
Sensações maravilhosas que nos transformam.
A transformação de seres racionais
Para agirmos por instinto.
Mudando o mundo em nossa volta.
28-11-94
SONETO XXVII
Como é bom desvendar os mistérios.
Sempre pensei, fugi de meu mundo
Para mudar o que não conseguia viver,
Para esquecer o que não tinha acontecido.
Antes me evadia, pois vivia da imaginação
Hoje não consigo mais fugir.
A imaginação passou a ser verdade
E meu mundo tornou-se verdadeiro.
Meu mundo de cristal partiu.
Tenho que encarar desafios,
Falar o que somente escrevia.
As palavras saem do papel,
E vêem à boca
Como doces para uma criança.
28-11-94
SONETO XXVIII
Onde está o amor?
Ele existe, deveras?
Tenho minhas dúvidas…
Onde posso encontrá-lo?
O que busco será mesmo o amor?
Aquele que transforma homens e mulheres
Em ratinhos numa praia deserta?
Quero achá-lo!?
Tempestades vêm.
Calmarias acontecem,
Quero viver sem me molhar.
Quando a chuva atingir-me
Pode ser que me resfrie.
E não há remédio para essa gripe.
28-11-94
SONETO XXIX
Quando o mistério é muito grande,
Não há que possa desobedecer,
Um eclipse numa manhã.
Mudando a vida com o escurecer.
Um abraço, um beijo, um carinho.
Muito mais do que palavras,
Gestos de desejos, às vezes ocultos
Outros mostrados com grande esmo.
Que não seja como o dia.
Que vem e logo vai.
Tem que ser eterno, enquanto durar.
Tem que ser infinito, até o fim
Enquanto este dia não chegar.
Temos que lutar e vencer.
28-11-94
SONETO XXX
Me encontrei, sei onde estou
Você veio comigo e encontrei um lugar calmo.
Longe daqueles que não se respeitam
Acho que realmente não sou daqui.
Quanto tempo perdemos
Para poder provar para você.
O que não precisei
Provar para ninguém.
A alegria em tê-la ao meu lado
E maior do que a de ser campeão.
Num jogo onde nunca se ganha.
A vida é um destes jogos
Todos sabemos as regras.
E sabemos que ninguém as seguirá.
28-11-94
A IMAGEM REFLETIDA
Aversão à imagem,
O medo de ver,
Mil mortes, um cemitério em seu corpo.
O medo da alma.
A sua imagem a do demônio.
O espelho lhe mostra a dor
Das pessoas a quem matou.
O fim das vidas
É o começo da sua.
Quando a coragem chega,
Mira ao espelho
E a imagem refletida,
A de um ser em putrefação.
A própria natureza humana.
Transforma a sua existência
E a dos seres a sua volta.
A morte lhe segue e persegue.
E o mundo não lhe quer mais.
A dor que a tantos fez sofrer.
Agora lhe chega e lhe destrói.
E o seu corpo se decompõe.
Quando a dor parar
O seu coração vai pedir piedade
E a morte inevitável
Virá para te levar.
20-2-95
SONETO XXXI
Você não tem direitos.
O Deus cuida de tudo
A vida não vale a pena,
Somente a comida por todo sofrimento.
Lutas desenfreadas pela sobrevivência
O dia cada vez mais próximo
A morte cada vez mais certa.
A esperança está acabando.
Os nomos estão desintegrados
Os nonarcas não passam de capachos
E o Deus domina.
Hoje ainda encontramos muitos deuses
Eles estão em todos os lugares
Assim como estavam os grandes faraós.
Sem data
SONETO XXXII
Liberte suas asas
Voe alto em direção ao céu
Dirija sua vida
Sem pensar que ela logo acabará.
Não é só você, ou eu.
Nós não escaparemos
Ela sempre vem
Você desejando ou não.
Quando ela bater em sua porta
Solte suas asas
Voe para o céu.
Não é que não exista outro lugar.
Mas o Inferno; é aqui.
Por isso precisamos morrer, para ter liberdade.
Sem data
SONETO XXXIII
Você é o caminho daqui até a eternidade
O qual é repleto de felicidade
Mesmo onde a inveja humana nos deixa sem esperança
Sendo este o sentimento que nos rouba a criança.
Culpando toda a dor que há
Resmungando até de todo o bem
Imaginando onde posso levá-lo
Salientando os pontos de maior horror.
Quero encontrar a morte,
Saber onde posso amá-la
Ir ao encontro, recitando.
Vê-la no infinito, cantando
Torcer para voltar onde tudo começou
E acreditar que sem ela, nada existe.
17-5-95
SONETO XXXIV
Quando o ódio atinge o seu auge
Precisamos nos livrar dele
E de algum modo, indiscutivelmente
Colocá-lo para fora.
A morte nestas horas
Talvez o mais certo o fosse,
Matar ou morrer
Para livrarmos de tanta fúria.
Nem a música,
Muito menos as lembranças
Conseguem fazê-lo passar.
E novamente a morte ronda
A esperança não existe mais
E ela virá para nos satisfazer.
29-8-95
MORTE EM DOBRO
A sua cama de madeira
Está lá, exposta
E todos choravam
Por você, pela última vez.
Eu estava em um canto
Amuado e sem sentido
Quando vi que estava só
Aliás, você e eu.
Abri a sua cama
E quebrei a integridade
O que qualquer humano
Nunca imaginaria fazer.
Necessitava mais uma vez
Sentir o seu corpo.
Agora já gélido e sem você
Mesmo assim: precisava.
A dor de sentir seu corpo
A última vez foi enorme
Não queria que fosse,
Queria ir junto?
A resposta logo veio.
Ao sair de sua cama
Vi o que não poderia
E morri junto ao meu amor.
17-5-94
PRINCÍPIO, MEIO E FIM
Pacato é o dia sem te ver,
Mórbido é o pensamento de te perder;
Mais a esperança de não sentir dor
Mesmo sendo este o desespero do horror.
Bati na porta e ninguém atendeu
Crianças brincavam no quintal
Amando e querendo ter o que sempre foi meu
Nenhum obstáculo é dado ao mortal.
Que te quer e ainda assim, morre.
Se o futuro esperar…
Sem nenhuma marca deixar.
Asas serão dadas aos que livre ficarão
Dirigindo a vida para o céu.
Doce alegria, um dia todos voltarão.
Bloquearam as entradas, e o que sobrou foi o mel.
Esse trazido para adoçar a perda da vida.
19-5-95
SÃO TANTAS. . .
É tamanha a vontade de te ter,
É imenso o vazio em meu peito.
Dolorosa as horas sem você.
São tantas as angústias.
Queria tê-la de verdade
E não ficar brincando
Num faz-de-conta que me tortura
São tantas as vontades
Contigo as antíteses são verdadeiras
Os opostos olham-se
Nossos corpos nunca unem-se
São tantas as esperanças
E que sejam todas.
São todas.
São tantas.
Alegrias, frustrações
Tristezas…
Mas a esperança mantém-se forte.
Só tenho você.
Só quero você. 19-5-95
SONETO XXXV
O PODER DA MORTE
O sangue escorrendo
Seria como saciar a fome
De famintos, odiando.
A única vontade é ver o terror
Mostrado para todos,
E o poder da morte
É maior que a vontade de viver.
Se os humanos se destroem
Porque não, acabarmos com todos
O mundo ficaria livre,
E os irracionais voltariam, dominando,
O poder da morte!
O poder da morte?
O poder da morte…
28-5-95
MARAVILHAS
Maravilhas não são aceitas
Armaduras perdidas se perdem
Rancores ficam no coração,
Corações de pobres humanos
Obcecados por serem melhores;
Sucumbidos pelo poder supremo.
Maravilhas estão presentes
Amarguradas e tristes
Uma a uma se concentram
Ruidosas e persistentes
Iniciam a batalha pela vida
Correndo para salvar
Inimigos que os desprezam.
Outrora, os personificavam.
Alegrias não existem mais
Levados pelo medo
Verdadeiros humanos correm
Escolhem os piores inimigos
Sem pensar que poderiam ser, amigos.
Dilúvios de pensamentos
Arrematam os humanos.
São eles que precisam de perdão
Ilustres ou não,
Livres para esquecerem o passado
Vivendo em um mundo que é seu
Aspirando glórias que não são suas.
1-6-95
HUMANIDADE
Máquinas estão sendo usadas,
Algumas com certa precauções,.
Última cor da glória.
Riscando os céus do passado.
Indo em direção ao futuro,
Cuidadosamente esperançosos.
Imagens passam pelas mentes,
Obviamente doentes.
Grandes obstáculos vencidos
Irmãos de ferro, apodrecendo.
Analogias, estudos inúteis.
Nada se compara à tecnologia
Destruída ou recomposta.
E as usam para fazer o mal.
Limitando e escondendo
Lixo atômico usado.
Invernos que terminam,
Memórias que se passam
Escondidos dentro da escuridão
Lentamente apertam o botão
Homens são destruídos.
Outrora, dominaram o mundo
Restando agora somente o NADA.
Sem data
MENTIRAS VERDADEIRAS
Sempre que preciso de mim,
Algo de forte me atraí
Ninguém pode vencer na vida
Gerando confusões e conflitos.
Uns querendo mais que outros.
E eu ainda não me encontrei.
Subindo as altas montanhas.
Unindo dor e prazer;
Overdose de emoções.
Resistência; quero me encontrar?
E a resposta estava longe…
Labirintos e esconderijos
Abrigos que não abrigam nada
Gritos de horror
Ruindo as estruturas
Ícones de uma vida inexistente.
Menosprezando as razões.
Aspirando dores e fracassos.
Sempre perguntando e não encontrando respostas.
Sem data
PRISIONEIRO
Acabaram os motivos de tristezas
Criaturas foram para o espaço
Limitaram-se somente a observar.
Estavam procurando uma nova razão.
Atiraram em nossos corações,
Risos foram ecoados por nossas almas
Sangue foi visto através das veias.
Incertezas todas se acabaram
Verdade é só aquilo que existe.
Através do seu lindo sorriso
Vejo o dia cada vez mais belo.
Santos são aqueles que nos deram
Idílios para vivermos assim,
Como dois pássaros silvestres,
Crescendo e tentando
Nós livrar de grades que nos prendem.
Sem data
ARREPENDIMENTO
Ampliando meus conhecimentos
Mereço ser exonerado
Ou ainda riscado e expulso
Recebendo xingos e pontapés.
É a verdade nua e crua.
O preço que se paga.
Fingi que não era comigo
Outorgava este direito
Gritava aos quatro cantos
Observando que ninguém percebia.
Quero acreditar que não
Urros vêm de dentro
E eu não confio no coração.
Amores que se vão
Ruídos de paixão
Destruídos pela insanidade
Elaborados pelos que dizem ler: bondade.
SONETO XXXVI
Estou perdido na noite eterna
Sanidade foi para o espaço
A loucura tomou conta de mim.
Não consigo ver o que me mostram.
Meus olhos não servem para enxergar
Pois a verdade está distorcida,
Não existe saída, ou,
Estou em um labirinto infernal.
Meu corpo arde buscando a liberdade
Não sei onde posso encontrá-la.
Talvez a saída seja entregar-me a ela.
Que venha e me leve,
Junto formaremos um lindo par
Esperando o dia de voltar.
12-6-95
MENTE PERDIDA
Longe da minha terra amada
Ouvi uma história que me emocionou
Um homem que não tinha nada
Caiu de joelhos e chorou.
Urros ele dava ao luar
Riscando o ar como uma estrela
Amedrontador, víamos sua enorme dor.
Eloqüente era a sua loucura.
Imagens formavam-se a sua frente
Navios, aviões, brinquedos de papel.
Sacudiam o obscuro de sua mente.
Antíteses, hipérboles, pleonasmos
Nada se concretizava, nada se destruía.
Idílios de uma vida passada.
Dominações, lembranças que viam
Aberrações, a criança que um dia foi
Desastres em suas memórias.
Emoções que se acabaram.
12-6-95
BELEZA
Os mais belos dias…
Podem passar ou ficar na memória.
Outros, porém, nunca chegam a tê-los.
Doutrinas não existem mais;
E mergulhados no infinito da imensidão.
Respeitam as belas manhãs.
Depois da alegria de viver
Amores e paixões se completarão.
Muitos acham a vida sem graça.
Os culpados são eles mesmos
Respondo aos desesperados
Terminar de lutar pela vida,
E se entregar à morte.
Sem data
INDECISÃO
Não sei o que fazer
Não sei o que pensar
Não sei pra onde ir.
Estou perdido dentro de mim.
Dividido entre o coração e a razão
Entre o céu e a Terra
No meio do abismo e da montanha.
Não quero perder o que nunca tive.
Quero reviver o que perdi.
Os melhores momentos podem voltar.
E junto as decepções e derrotas.
Estou no fundo do poço
Com água até o pescoço
Subindo, subindo, subindo…
O que é que eu faço agora?
16-6-95
DEVANEIO
Vontades eu passaria se não fosse,
Amargas, turbulentas, despojadas
Negligenciada por seres inferiores,
Escoriações em corpos putrificados
Sangue jorrava de todos os poros
Suculenta era a carne para os deuses.
Apenas esperando o fim próximo…
sem data
VOLTA
Macilenta a aurora desabrochava.
Abrindo os caminhos para o vento
Recoberto pelo olor de seus cabelos
Clareando a memória com o seu beijo
Olhos, narizes, bocas se tocando
Somando as nossas almas.
Esbarramos outra vez o nosso destino.
Violentamente tentamos esconder.
Apenas nos separamos; fisicamente.
No interior de nossos corpos
Esquecemos acesas as chamas
Servimos de cobaias para nós mesmos.
Sentimos novamente o ardor.
Abrimos novamente o coração.
Sem data
SONETO XXXVII
Deveria ter dito não,
Seguido a razão humana.
Mas quem disse que o amor é humano?
É irracional, não burro.
É lindo, é maravilhoso.
Estou nas nuvens, esperando o vento passar.
Não vou ficar ébrio
Manterei a lucidez.
Esperando o máximo de cada dia
Aguardando o momento certo.
Luzes, raios e turbulências
Os anjos manterão seus olhos abertos
Descartando a hipótese do fim.
Estão vendo e morrendo de inveja.
Sem data
O COMEÇO DO FIM
Estilhaçada está minha vida
Dura e cheia de obstáculos
Uma enorme dor, aflige-me
Suspensa foi a vontade de continuar.
Despedidas faço, a mim, só.
Enrustida na alegria acabada.
Rotas e caminhos fecharam-se
Ondas e maremotos destruíram todo
Morte é a solução.
Escolhas fizeram-se ao acaso
Triste fim de meus dias.
20-6-95
SUSSUROS
Quase no final de meus dias
União e dor se contrapõem.
Esquecido do mundo, fui.
Substâncias pastosas me pegam
Entre o fim e o apagado.
Busquei a liberdade.
Inventei um novo valor.
E este agora está sendo usado.
Noite e escuridão,
Valores que pregam a morbidez
Eu a quero para mim
Negando a existência terrena
Indo para o desconhecido
Descobrindo o que só imaginei
Alegrias, amores, ou nada?
Lágrimas escorrerão dos tristes;
Amigos e inimigos chorarão.
Me recuso a continuar aqui
Uma única coisa mantém-me vivo:
Ela ainda não me quer
Retrocederei até o infinito
Terei a dor do nascimento
Enforcar-me-ei; as esperanças.
DESESPERO
Diálogo com o fim
Quero ver o momento que sempre evoquei.
Urrando, gritando, aclamando a dor
Esquecendo que viver é necessário.
Suspirando as últimas lembranças
Enlouquecido pela quimera esquecida.
Jamais adoraria a eternidade.
Árvores morrem de pé.
- Bravos guerreiros estão livres
- Estarão mortos hoje ou logo.
- Nada os vencerá até o fim.
- Vivencia o horror próximo
- Iremos juntos para o fundo
Navegando para o abismo
Dando corda no pescoço
Abraçando e convencendo a levar-me.
- Morrerá quando me bem convier
- Ontem deveria haver sido.
- Rapaz, não sabe o que encontrará.
- Terei prazer em conhecer
- É, logo te levarei.
21-6-95
ÚLTIMAS PALAVRAS
Belezas não existem mais
Estou perdido dentro de mim.
Watts são descarregados em minha cabeça.
Elétrodos ligados trarão a dor.
Livrar-me-ei deste inferno?
Catástrofes são bem-vindas.
Omeletes de humanos, queimados.
Matanças ocorrendo no planeta
Esquecendo-se da verdadeira vida.
Te levarei agora; queres?
Obrigado. Me livrarás do purgatório?
Destemido fui e entreguei-me
Esticado e pendurado verei o fim
Acabado. Destruído. Sem oxigênio
Tempo não faltará para pensar.
Homens, estes sim vivem no inferno.
22-6-95
A DESPEDIDA[2]
A hora de minha morte chegou.
Diante do espelho vejo o fim.
Estou indo para o espaço perdido.
Suspirando às últimas enfermidades.
Perdido dentro de mim
E buscando um passado que não existiu.
Deixo na memória da multidão
Igualdades, esperanças, morbidez
Daqui ao final, poucos instantes.
Adeus !
22-6-95
APÉNDICE
SONETO I
De onde provém este estranho sentimento
Que, como ácido, corrói minhas entranhas
E leva-me a beirar o abismo da loucura
Destruindo meus últimos vestígios de humanidade?
Sinto-me como se devorado por abutres
Exatamente como Dédalo – mas eu não o sou,
Pois meu fígado não regenera
E tudo o que perco não retorna.
De certo que sou um amaldiçoado!
Será que mereço sucumbir a esse sofrimento
Só porque me tornei infinito?
Talvez esse seja o preço que se paga
Por descobrir que a razão da existência
É se entregar aos braços da morte.
Herbos Rodrigues
16-8-95
METÁFORA
A vida é como um livro de várias páginas,
Nas quais encontramos tristezas e alegrias
Imaginamos sentimentos e criamos situações
Tentando dessa forma transformá-la em ficção.
Somente compreenderá a vida quem conseguir
Intercalar a fantasia com a realidade,
Refletindo em suas ações, os seus desejos,
Como se cada capítulo fosse um grão da existência.
E assim a história tornará a se repetir,
Como se um novo livro fosse aberto
E o de outrora fosse fechado e esquecido.
A Vida é como um livro de muitas páginas
E se o Amor é a véspera das lágrimas
Eu já tenho meus olhos umedecidos.
Silvério Andrada
8-8-95
REFLEXÕES
Já procurastes uma razão para a vida,
Esta tão insana e enigmática?
Aonde encontrar a tão sonhada paz
Não participando nunca de uma guerra?
Rios não existiriam sem água,
Ou, então, ociosos sem céus estrelados
Divino não é Deus, nem somos nós
Reles criaturas sem propósito algum
Imagem e semelhanças de nós mesmos.
Gárgulas disfarçadas, sabiamente camuflados.
Unidos pela vontade de vencer sempre.
Essa será nossa verdadeira razão?
Sobreviver às custas de outro camaleão?
Será isso que nós realmente procuramos?
Idolatrar mitos da prepotência? Nós mesmos!
Quisera eu ser superior a todas as criaturas…
Único, no entanto, somente é o Amor,
Este antídoto de todos os males – panacéia.
Iremos transpor o mundo com ele?
Resta somente esperar, e se preciso: Perecer!
Até o dia em que ele se torne real.
Herbos Rodrigues (18-5-95)
SONETO PÓSTUMO
I
Minha maior construção
Foi a destruição de mim mesmo
Tirei a vida,
E morto estou.
Continuo escrevendo
Estou nas trevas,
Ou será que é isto o paraíso?
Minha vida não valia nada.
Mas era melhor que agora
Quero voltar e não posso.
Amava a morte
E continuo a admirá-la
Pensei que pudesse com ela
Mas venceu-me; e quero voltar.
II
Submergindo das profundas cavernas,
Ecoa um som; ruído destruidor
Que é o mesmo, o barulho infernal
Que atormenta os meus ouvidos.
Dia e noite, sempre, sempre…
Minha cabeça parece que explode,
O som aumenta, a dor cresce
Tornar-se insuportável, inaudível.
Percebo que ultrapassei os limites
O inferno não era aí,
Os homens não vivem no inferno.
O barulho aumenta a cada segundo.
Torna-se mais alto, mais agudo.
Eu vivo no inferno.
III
Meu espírito ronda pela cidade.
Um frio percorre o meu corpo
Adormecido em minha cama,
Cama-dura, fétida, fechada.
Vermes roem o meu ser
Vejo e tenho vontade de vomitar,
Sou eu, apodrecendo, acabando
Não pensei que fosse assim.
Cada pedaço podre de meu corpo
É sentido pela minha alma
A dor é horrível.
A morte surda
Caminhou a meu lado.
E abandonou-me aqui.
IV
Que sê bem-vindo, — disse-me a morte.
E eu a queria, a desejava
Logrei-a. Arrependido estou.
Perdi a vida e os motivos.
Fui levado, ela mentiu para mim
Disse que livrar-me-ia do purgatório.
Mentirosa. Trouxe-me e aqui estou
Buscando uma nova saída.
Desculpe-me leitor:
Mas estes versos que faço
Oriundos do Reino de Hades
Podem fazer com que vejam
Que a luz não está no fim,
E sim no novo começo.
V
O mestre das trevas
Tomou conhecimento de mim
Agora, ele me quer
E eu não posso retroceder
Estou em sua casa
E ele, como bom anfitrião
Quer dar-me as boas vindas
Não tenho para onde correr.
Seus escravos estão à minha procura
Logo encontrar-me-ão.
Terei que ceder.
Aqui o todo poderoso
Manda, e me quer
Eu não queria morrer?
[1] Homenagem póstuma a Airton Senna da Silva
[2] Nota do editor: Maurício Giandelli foi encontrado morto, enforcado, em seu apartamento, no dia 24/06/95 onde deixou estes poemas jogados no chão.